quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Esquerda Democrática IV

PSD de esquerda

Se quisermos dar algum conteúdo ao rótulo “social-democrata”, só se pode concluir que o PSD usa o nome mas não pratica a coisa.João Cardoso RosasAs vozes mais interessantes da direita liberal e conservadora andam muito preocupadas com o “esquerdismo” do PSD. José Miguel Júdice chora lágrimas amargas por um partido sem remédio. Rui Ramos lamenta que os seus líderes nada tenham esquecido nem aprendido. Mas não há razões para tamanha preocupação. É verdade que a nova liderança do partido acusa o Governo de insensibilidade social, de ataque aos direitos dos trabalhadores, e que toda essa conversa faz lembrar o PCP ou a Intersindical. Mas há uma verdade ainda maior: é que nada disso é para levar a sério. Há duas razões para o falso esquerdismo do PSD. A primeira é de carácter contextual e estratégico. Uma vez que o PS retirou ao PSD a bandeira reformista num sentido (ligeiramente) liberal, a única forma de o PSD criticar as medidas do Governo consiste, muitas vezes, em alinhar com a oposição de esquerda. Menezes parece não ter grande pudor em fazê-lo. Mas convém recordar que, sob Marques Mendes, o PSD fazia exactamente a mesma coisa. Portanto, o aroma esquerdista de algumas declarações da liderança do PSD não corresponde a nada de substantivo e é apenas um subproduto do actual xadrez político. A segunda razão para o pretenso esquerdismo do PSD é mais interessante e merece reflexão. Trata-se de uma razão de carácter estrutural e ideológico. O PSD carrega, nos princípios e no nome, o fardo da ideologia social-democrata. Mas, como todos sabemos, sempre houve muito poucos social-democratas no PSD. Hoje haverá menos do que nunca. Se quisermos dar algum conteúdo ao rótulo “social-democrata”, só se pode concluir que o PSD usa o nome mas não pratica a coisa. A social-democracia também nada tem a ver nem com as bases nem com o espaço natural do PSD no espectro partidário português. O PSD existe no nosso sistema partidário como contraponto à social-democracia do PS do passado e ao liberalismo de esquerda do PS do futuro. As bases do PSD são as classes médias urbanas, seduzíveis por um discurso vagamente liberal, e o país tradicional, especialmente no Norte, mais sensível a um discurso conservador. Neste aspecto, o PSD conhece as hesitações de todos os partidos liberais-conservadores. Quando se torna mais liberal aborrece os conservadores e, se fica demasiado conservador (o que também costuma significar mais estatista), incomoda os liberais. Mas nada disso tem o que quer que seja a ver com a social-democracia, ou com a esquerda em geral.Um exemplo interessante do papel da social-democracia no PSD encontra-se num texto publicado no número de Outubro da revista “Atlântico” por Mira Amaral, um membro das elites do partido que não se dá mal com Menezes. O ensaio de Mira Amaral versa sobre “a social-democracia do século XXI”. O que propõe? Grosso modo, propõe a transferência para a sociedade civil das funções sociais do Estado e a adopção do princípio do utilizador-pagador. A proposta de Mira Amaral não consiste em dizer que o Estado deve garantir as suas funções sociais recorrendo à sociedade civil. O que ele propõe é que o Estado deixe pura e simplesmente de garantir muitas dessas funções. Algumas medidas que daqui decorrem são a privatização parcial do sistema de pensões, o fim do acesso universal aos cuidados de saúde e a necessidade de recurso a seguros privados, o pagamento integral dos custos do ensino superior pelos estudantes (ao nível do segundo ciclo), etc. Ou seja, tudo aquilo que Mira Amaral propõe equivale à destruição do legado social-democrata do pós-guerra preconizada pela direita europeia. Note-se que eu não estou a dizer que este discurso não tem sentido. O que não tem mesmo sentido é considerá-lo “social-democrata”.Julgo que o programa de Mira Amaral será aplicado um dia, quando o PSD chegar ao poder. Será talvez suavizado, como sempre acontece com os programas e propostas políticas, mas não andará muito longe da teoria agora exposta. Como se vê, o PSD pode ter um Menezes e até o indescritível Santana, pode ter elites mais ou menos deprimidas, mas não corre riscos de hesitações à esquerda. A direita liberal e conservadora pode dormir descansada (pelo menos no que diz respeito à ideologia do seu partido; quanto à competência dos actores, nada direi).

____João Cardoso Rosas, Professor de Teoria Política-Diário Económico, 25-10-07

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Esquerda Democrática III

Mau, o trânsito na via da esquerda, e o COMBATE pelo seu protagonismo e liderança, adensa-se! Segundo palavras de Santos Silva: "A ideologia do PS é a mesma de sempre, o socialismo democrático”, num espaço político que é a “esquerda democrática”. “Não há outra força política capaz de exprimir o que é a esquerda democrática”, acrescentou. (!!!)


Inserido no “Ciclo de Debates do Loreto”, uma iniciativa que tem como objectivo promover regularmente o debate no interior do partido sobre o modelo de desenvolvimento do País, este 1º jantar-debate, moderado por Miguel Coelho, contou com a presença de Augusto Santos Silva, Jamila Madeira, Joel Hasse Ferreira, Helena Roseta, Barros Moura, Vieira da Silva, José Miguel Medeiros, Custódia Fernandes e Artur Penedos, entre outros. Aníbal Lamy, secretário-coordenador da Secção, abriu o debate com uma intervenção em que referiu algumas das iniciativas que esta estrutura vai brevemente levar a cabo, salientando que a inclusão do desenvolvimento sustentável na Declaração de Princípios “é o embrião de todo o projecto que a Secção pretende animar, visando contribuir para que o PS tenha uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo para o País, nas mais diversas áreas, desde a economia ao ambiente, passando pela saúde e educação, no quadro de uma oposição construtiva e crítica”. Relator da proposta de revisão, Augusto Santos Silva centrou a sua intervenção nas questões mais pertinentes da Declaração de Princípios, referindo que a ideologia do PS “é a mesma de sempre, o socialismo democrático”, num espaço político que é a “esquerda democrática”. “Não há outra força política capaz de exprimir o que é a esquerda democrática”, acrescentou. Augusto Santos Silva sublinhou que a Declaração de Princípios consagra novas questões como os direitos das minorias, a paridade nas relações entre os géneros, o cosmopolitismo e as políticas de soberania - “acesso dos cidadãos à justiça e uma política democrática de segurança interna, inserida no âmbito do combate ao populismo”. O antigo ministro da Cultura do último Governo do PS referiu ainda que a nova versão da Declaração de Princípios incorpora de uma forma muito visível a questão do desenvolvimento sustentável, que na primeira versão era “muito incipiente”. O presidente da Federação de Leiria, José Miguel Medeiros, outro dos intervenientes no debate, manifestou-se satisfeito com a evolução do processo da Declaração de Princípios, e no que respeita à revisão estatutária sustentou que “as concelhias e federações não podem ser caixas postais das decisões da direcção”.
Que mundo estamos a deixar aos nossos filhos?
“Que mundo estamos a deixar aos nossos filhos?”, perguntou Helena Roseta, para sublinhar que “esta questão tem tudo a ver com a ideia de desenvolvimento sustentável”, que, frisou, é um conceito que não tem apenas a ver com a economia e o ambiente, mas também integra as componentes cultural e social, no quadro de uma democracia com elevada participação dos cidadãos. “Só há desenvolvimento sustentável se houver democracia e participação das pessoas”, disse. Helena Roseta confessou ter ficado “decepcionada” ao ler a primeira versão da Declaração de Princípios, que classificou de “redonda”, e disse esperar que a nova proposta “seja mais acutilante”. Por outro lado, a deputada socialista que se mostrou preocupada com a situação mundial, disse que “não podemos permitir que a luta contra a pobreza no nosso planeta seja posta em último lugar”. Já Jamila Madeira sublinhou que a Declaração de Princípios serviu-lhe sempre “de fonte de ensinamento e de orientação”. A líder da JS considerou, por outro lado, que “é fundamental que a esquerda assuma a luta pela sustenta-bilidade social do mundo, e em particular da Europa”, considerando ser necessário a “promoção de uma nova ordem mundial” Na sua intervenção, Joel Hasse Ferreira teceu rasgados elogios ao “processo muito participativo” em torno da Declaração de Princípios, defendendo que o PS deve trabalhar no sentido de ter um “sólido ancorar no tecido social e económico”, condição essencial para ter uma “duradoura base eleitoral e sociológica”. Manifestando-se preocupado com os rumos do planeta, nomeadamente a nível da sua sustentabilidade, teceu duras críticas à Administração Bush, que acusou de estar “conotada com a extrema-direita”. Vieira da Silva, por sua vez, disse que se revê na nova versão da Declaração de Princípios, “um instrumento de mudança possível e de afirmação do PS como força principal da mudança social”, acrescentando que “os partidos que não tenham capacidade de ter boas ideias, não poderão ser eficazes na construção de uma alternativa de poder”. O ex-secretário de Estado afirmou ainda que “apesar de tudo”, a economia de mercado “tem sido a mais eficaz na afectação de recursos”. Barros Moura, outro dos intervenientes, salientou relativamente à Declaração de Princípios que “este é um debate que só o PS podia realizar com esta amplitude”.
Clarificação ideológica e separação de águas
Afirmando temer que a Declaração de Princípios “seja o maior denominador comum, incorporando todos os contributos”, e “reproduzir compromissos que nos descaracterizam”, disse que “ganharíamos em clarificação ideológica, separando as águas”. “O PS tem de ter uma clara definição ideológica visando hegemonizar a esquerda democrática”, acrescentou. Barros Moura defendeu ainda que o PS deve ter um projecto alternativo ao Código de Trabalho, uma vez que, alertou, “só resistir pode conduzir os trabalhadores a uma derrota histórica”. Já Artur Penedos, “algo emocionado”, como confessou por diversas vezes, arrasou o pacote laboral. “O Código do Trabalho é uma lei miserável que a ser aprovado lançaria os trabalhadores na maior das precariedades, instituindo os contratos a prazo permanentes e eternos”, disse. Na sua intervenção, Artur Penedos disse que “não se pode esquecer um vasto conjunto de mecanismos sociais implementados pelos governos socialistas”, sustentando que as “práticas políticas do anterior e do actual Governo mostram de uma forma clara e exemplar que existe uma divisão clara entre esquerda e direita”.
J. C. CASTELO BRANCO - PS em movimento

Esquerda Democrática III

Mau, o trânsito na via da esquerda democrática, e o COMBATE pelo seu protagonismo, adensa-se...Não é que, segundo o Ministro Santos Silva " A ideologia do PS é a mesma de sempre, o socialismo democrático”, num espaço político que é a “esquerda democrática”. “Não há outra força política capaz de exprimir o que é a esquerda democrática” (!!!)

Inserido no “Ciclo de Debates do Loreto”, uma iniciativa que tem como objectivo promover regularmente o debate no interior do partido sobre o modelo de desenvolvimento do País, este 1º jantar-debate, moderado por Miguel Coelho, contou com a presença de Augusto Santos Silva, Jamila Madeira, Joel Hasse Ferreira, Helena Roseta, Barros Moura, Vieira da Silva, José Miguel Medeiros, Custódia Fernandes e Artur Penedos, entre outros. Aníbal Lamy, secretário-coordenador da Secção, abriu o debate com uma intervenção em que referiu algumas das iniciativas que esta estrutura vai brevemente levar a cabo, salientando que a inclusão do desenvolvimento sustentável na Declaração de Princípios “é o embrião de todo o projecto que a Secção pretende animar, visando contribuir para que o PS tenha uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo para o País, nas mais diversas áreas, desde a economia ao ambiente, passando pela saúde e educação, no quadro de uma oposição construtiva e crítica”. Relator da proposta de revisão, Augusto Santos Silva centrou a sua intervenção nas questões mais pertinentes da Declaração de Princípios, referindo que a ideologia do PS “é a mesma de sempre, o socialismo democrático”, num espaço político que é a “esquerda democrática”. “Não há outra força política capaz de exprimir o que é a esquerda democrática”, acrescentou. Augusto Santos Silva sublinhou que a Declaração de Princípios consagra novas questões como os direitos das minorias, a paridade nas relações entre os géneros, o cosmopolitismo e as políticas de soberania - “acesso dos cidadãos à justiça e uma política democrática de segurança interna, inserida no âmbito do combate ao populismo”. O antigo ministro da Cultura do último Governo do PS referiu ainda que a nova versão da Declaração de Princípios incorpora de uma forma muito visível a questão do desenvolvimento sustentável, que na primeira versão era “muito incipiente”. O presidente da Federação de Leiria, José Miguel Medeiros, outro dos intervenientes no debate, manifestou-se satisfeito com a evolução do processo da Declaração de Princípios, e no que respeita à revisão estatutária sustentou que “as concelhias e federações não podem ser caixas postais das decisões da direcção”.
Que mundo estamos a deixar aos nossos filhos?
“Que mundo estamos a deixar aos nossos filhos?”, perguntou Helena Roseta, para sublinhar que “esta questão tem tudo a ver com a ideia de desenvolvimento sustentável”, que, frisou, é um conceito que não tem apenas a ver com a economia e o ambiente, mas também integra as componentes cultural e social, no quadro de uma democracia com elevada participação dos cidadãos. “Só há desenvolvimento sustentável se houver democracia e participação das pessoas”, disse. Helena Roseta confessou ter ficado “decepcionada” ao ler a primeira versão da Declaração de Princípios, que classificou de “redonda”, e disse esperar que a nova proposta “seja mais acutilante”. Por outro lado, a deputada socialista que se mostrou preocupada com a situação mundial, disse que “não podemos permitir que a luta contra a pobreza no nosso planeta seja posta em último lugar”. Já Jamila Madeira sublinhou que a Declaração de Princípios serviu-lhe sempre “de fonte de ensinamento e de orientação”. A líder da JS considerou, por outro lado, que “é fundamental que a esquerda assuma a luta pela sustenta-bilidade social do mundo, e em particular da Europa”, considerando ser necessário a “promoção de uma nova ordem mundial” Na sua intervenção, Joel Hasse Ferreira teceu rasgados elogios ao “processo muito participativo” em torno da Declaração de Princípios, defendendo que o PS deve trabalhar no sentido de ter um “sólido ancorar no tecido social e económico”, condição essencial para ter uma “duradoura base eleitoral e sociológica”. Manifestando-se preocupado com os rumos do planeta, nomeadamente a nível da sua sustentabilidade, teceu duras críticas à Administração Bush, que acusou de estar “conotada com a extrema-direita”. Vieira da Silva, por sua vez, disse que se revê na nova versão da Declaração de Princípios, “um instrumento de mudança possível e de afirmação do PS como força principal da mudança social”, acrescentando que “os partidos que não tenham capacidade de ter boas ideias, não poderão ser eficazes na construção de uma alternativa de poder”. O ex-secretário de Estado afirmou ainda que “apesar de tudo”, a economia de mercado “tem sido a mais eficaz na afectação de recursos”. Barros Moura, outro dos intervenientes, salientou relativamente à Declaração de Princípios que “este é um debate que só o PS podia realizar com esta amplitude”.
Clarificação ideológica e separação de águas
Afirmando temer que a Declaração de Princípios “seja o maior denominador comum, incorporando todos os contributos”, e “reproduzir compromissos que nos descaracterizam”, disse que “ganharíamos em clarificação ideológica, separando as águas”. “O PS tem de ter uma clara definição ideológica visando hegemonizar a esquerda democrática”, acrescentou. Barros Moura defendeu ainda que o PS deve ter um projecto alternativo ao Código de Trabalho, uma vez que, alertou, “só resistir pode conduzir os trabalhadores a uma derrota histórica”. Já Artur Penedos, “algo emocionado”, como confessou por diversas vezes, arrasou o pacote laboral. “O Código do Trabalho é uma lei miserável que a ser aprovado lançaria os trabalhadores na maior das precariedades, instituindo os contratos a prazo permanentes e eternos”, disse. Na sua intervenção, Artur Penedos disse que “não se pode esquecer um vasto conjunto de mecanismos sociais implementados pelos governos socialistas”, sustentando que as “práticas políticas do anterior e do actual Governo mostram de uma forma clara e exemplar que existe uma divisão clara entre esquerda e direita”.

Esquerda Democrática II

Mais um contributo, agora aduzido também por intervenções de Manuel Alegre...

Testemunho

25 de Novembro de 1975

Notas históricas sobre a génese do processo político-militar que conduziu à consolidação da democracia política[Edmundo Pedro/Público, 05.12.2005]
Graças à intervenção de Manuel Alegre, a separação das águas entre a esquerda democrática e a esquerda autoritária, foi ali claramente operada. Aquele episódio determinou, em grande parte, o curso futuro do processo político que conduziu, em 25 de Novembro de 1975, à consolidação definitiva da democracia política.
No processo político iniciado com a Revolução de Abril configuraram-se, desde o início, dois caminhos distintos quanto ao rumo que aquele devia seguir. De um lado, alinharam as forças que defendiam o cumprimento do Programa do MFA que consagrava, como um dos seus três pontos fundamentais, a democratização do país. O primeiro passo para garantir esse objectivo era a eleição, por voto universal e secreto, de uma Assembleia Constituinte que discutisse e aprovasse o quadro legal em que deveria decorrer a nossa vida colectiva. O Partido Socialista, liderado por Mário Soares, foi o organizador fundamental das forças que, durante ano e meio, criaram as condições políticas que permitiram ao sector militar que permaneceu fiel ao Programa do Movimento - representado, a partir do verão de 1975, pelo "Grupo dos Nove" - organizar a resistência ao projecto do PCP e dos esquerdistas apoiados no sector radical do MFA. O ano e meio do PREC, com as suas grandiosas manifestações de apoio ao processo de democratização e aos militares que o defendiam - a maior parte das quais ocorreu em 19 de Julho de 1975, que juntou na Alameda Afonso Henriques centenas de milhares de pessoas! -, acompanhadas dos gritos, que ecoaram do norte ao sul do país - "Democracia , sim! Ditadura não!", "É preciso respeitar, a vontade popular!", "Socialismo, sim! Ditadura, não!" -, criou as condições políticas para que aqueles militares se organizassem e criassem uma estrutura capaz de resistir às pretensões dos comunistas e da ala esquerda do MFA. Mas a separação das águas entre a esquerda democrática, liderada pelo PS, e a esquerda autoritária, liderada pelo PCP, verificou-se, não durante o PREC, mas cinco anos antes do 25 de Abril. Com efeito, em 1969, a quando das eleições promovidas por Marcelo Caetano, pela primeira vez na história da oposição à ditadura o sector democrático, liderado por Mário Soares, recusou integrar-se na organização "unitária" CDE, ou seja, numa frente inspirada e controlada pelos comunistas e ao serviço dos seus objectivos políticos. Não se deixou enredar na tradicional manobra "frentista" dos comunistas. Tomou a iniciativa de concorrer às eleições com uma plataforma eleitoral própria, a CEUD, que agrupava um conjunto de conhecidos e prestigiados democratas e que viria a constituir, no fundo, o embrião do futuro Partido Socialista... Essa decisão premonitória constituiu o momento histórico de viragem no tradicional alinhamento unitário das forças que combatiam a ditadura. Foi essa iniciativa - a que se juntou, em Dezembro de 1974, o desfecho do histórico II Congresso do PS - que contribuiu, de forma determinante, para a derrota do projecto que Cunhal concebera para chegar ao poder com o apoio de um PS sem autonomia política, transformado em simples satélite destinado a dar uma coloração democrática ao seu efectivo domínio... Curiosamente, no princípio de Setembro de 1973 - sete meses antes do 25 de Abril - encontrei Mário Soares no Aeroporto de Madrid. Acabara de chegar do Chile onde fora entrevistar Salvador Allende que morreria alguns dias depois, vítima do golpe de Pinochet. Apesar de se encontrar longe do nosso país, Mário Soares estava, obviamente, mais bem informado do que eu. Mostrou-se convicto de que a ditadura salazarista estava a chegar ao fim. Procurou saber se eu estava disposto a integrar-me no PS, cujo congresso fundador se tinha realizado na Alemanha, uns meses antes. Aceitei, sem hesitar, o seu convite. Mas o que revelou a extrema intuição política de Mário Soares foi a sua convicção de que teríamos de defrontar, no pós 25 de Abril, um pequeno, mas extremamente organizado PCP disposto a aproveitar a debilidade dos partidos democráticos para tentar desviar a Revolução do rumo democrático. Para contrariar esse perigo era preciso organizar, rapidamente, um forte Partido Socialista. O outro episódio que teve uma enorme influência no desenrolar do processo que culminou em 25 de Novembro de 1975 foi, como referi, o II Congresso do PS. Na véspera do início dos trabalhos desse memorável conclave, o meu amigo Manuel Serra chamou-me ao seu "estado-maior" e dirigiu-se-me, mais ou menos nestes termos: "Edmundo, conto contigo no Congresso. Este é o momento da clarificação no PS. Do meu lado, estão os que querem, realmente, marchar para o socialismo. Do outro lado, estão os social-democratas, liderados por Mário Soares, que pretendem travar o processo revolucionário e impôr à Revolução um cunho reformista. Tens de estar do meu lado!" Limitei-me a observar-lhe: "Manuel, sou muito teu amigo. Travámos juntos, em Beja, um grande e arriscado combate pela liberdade. Mas não contes comigo para marchar para o socialismo com o PCP. O desfecho dessa luta seria, inevitavelmente, se saísse vitoriosa, um regime totalitário. Passei a vida inteira a lutar contra uma ditadura. Não quero contribuir para suportar outra, quiçá pior". Assisti ao Congresso na companhia de Piteira Santos, Francisco Lyon de Castro, Mário Dionísio e Manuel Alegre. Os projectos em confronto dividiam os congressistas praticamente ao meio. Manuel Serra reclamava-se de ser a ala esquerda do PS. No ambiente que dominava a reunião magna dos socialistas - onde até António Guterres, que até ali estivera ao lado do Serra, hesitava no partido a tomar! - só pela esquerda a moção de Mário Soares poderia sair vencedora. No momento que precedeu a votação das moções reinava na sala um ambiente de grande tensão e incerteza. Nessa altura, disse a Manuel Alegre, sentado ao meu lado: "Manel, tens de intervir." Ele aceitou o repto. O seu vibrante discurso a favor do rumo democrático da Revolução levou os congressistas ao rubro. Convenceu os últimos hesitantes. Graças à intervenção de Manuel Alegre, a separação das águas entre a esquerda democrática e a esquerda autoritária, foi ali claramente operada. Aquele episódio determinou, em grande parte, o curso futuro do processo político que conduziu, em 25 de Novembro de 1975, à consolidação definitiva da democracia política.

Militante socialista, tarrafalista

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Esquerda Democrática

À atenção do Dr.Luis Filipe Menezes:

Noção de Esquerda Democrática:

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A Esquerda Democrática foi uma ala interna da União Democrática Nacional (UDN), criada e oficialmente reconhecida em 1945, para reunir os opositores socialistas ao regime do Estavo Novo, dando origem, em 1947, ao Partido Socialista Brasileiro.

[editar] História
Quando da fundação da UDN, os líderes do partido quiseram manter unidos todos os opositores ao governo de Getúlio Vargas, entre os quais uma parte era composta de simpatizantes do socialismo e outras correntes de esquerda, muitos deles atingidos pela repressão do Estado Novo.
Para isso, foi constituída, em 25 de agosto de 1945, a Esquerda Democrática, como bloco autônomo dentro da UDN, concorrendo na mesma legenda para as eleições de 1945. Seu programa defendia o regime representativo, a liberdade sindical e de organização partidária, a saúde pública, o ensino gratuito, a reforma agrária, a industrialização e o divórcio.
No Rio de Janeiro, a Esquerda Democrática foi formada por lideranças como João Mangabeira, Domingos Velasco e Hermes Lima, os dois últimos eleitos deputados constituintes naquele ano. Em Pernambuco, seus principais líderes eram o sociólogo Gilberto Freyre, autor de Casa-Grande e Senzala, Ozório Borba e Mário Apolinário dos Santos; e na Paraíba, Aluísio Campos. Na Bahia, o advogado Nestor Duarte. Em Minas Gerais o principal nome do bloco eram os jornalistas Hélio Pellegrino e Roberto Gusmão, e no Rio Grande do Sul, Bruno de Mendonça Lima.
Em São Paulo, a Esquerda Democrática foi composta por membros da antiga União Democrática Socialista (UDS), como Paulo Emílio Salles Gomes, Antônio Cândido e Azis Simão. Inicialmente, também os comunistas Astrojildo Pereira e Caio Prado Júnior fizeram parte da Esquerda Democrática, mas retornaram ao PCB quando da legalização do partido.
Em 1946, a Esquerda Democrática decidiu separar-se da UDN e constituir um partido próprio, e no ano seguinte, transformou-se no Partido Socialista Brasileiro.

domingo, 14 de outubro de 2007

85 mil pessoas?

Caro Dr. Luis Filipe Menezes, uma grande correcção ao seu discuro de abertura: Não é verdade que o Engº Sócrates tenha sido assobiado no Estádio da Luz, por 85 mil pessoas...Sim, foi assobiado, mas por uma mera assistência, no máximo, cifrada em 65 mil pessoas, que é assistência máxima daquele estádio! Um Sportinguista como o senhor...Não se diz!

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O Che Morreu.E Tatu onde está?*

A História e o marketing gostam do Che mas não sabem o que fazer com Tatu. Tatu era o nome que Ernesto Guevara adoptou quando esteve em África. Entre Abril e Dezembro de 1965, Ernesto Guevara foi Tatu, combatendo algures no Congo, ao lado de Laurent Kabila. A primeira aventura militar dos cubanos em África acabou desastrosamente: Tatu fugiu do Congo para a Tanzânia e os seus homens regressaram a Cuba, sem honra nem glória. Não mais se falou de Tatu. Guevara voltaria a Cuba e seria novamente o Che. Meses depois partia para a Bolívia.Tal como acontecera no Congo, alguns meses na Bolívia bastaram para que Guevara se tornasse novamente num homem acossado e num comandante derrotado. O seu diário da Bolívia é o relato de alguém que tanto podia estar ali como noutro lado qualquer: encontrar comida e seguir sem ser visto são os únicos objectivos que parece ter para o seu grupo. A 9 de Outubro de 1967, o Che foi executado. Morto e eternamente jovem, Guevara deslizou das montanhas da Bolívia para os posters e t-shirts. Sem o fotogénico Che a ditadura cubana talvez ainda existisse mas seria certamente menos tolerada pelas democracias.Mas a ditadura cubana sabe que também deve algo a Tatu. Deve-lhe influência. A nomenclatura de Havana fez sua umas das conclusões do Che acerca da sua experiência africana: “os negros não servem para fazer a revolução”. O que não quer dizer que a nomenclatura tenha desistido de África. Antes pelo contrário para o mesmo continente africano donde Tatu fugira foram enviados milhares e milhares de cubanos. Não para fazer revoluções. Mas sim geo-política. Sobretudo na África que fala português.###A presença de militares cubanos nas antigas colónias portuguesas é anterior ao 25 de Abril. O lado mais visível dessa presença traduziu-se na captura pelo exército português, em 1969, do capitão cubano Pedro Rodríguez Peralta, na Guiné-Bissau. A partida de Peralt Portugal após o 25 de Abril teve os contornos românticos adequados a um guerrilheiro: com ele partiu também a enfermeira portuguesa que o tratara no hospital da Cruz Vermelha onde estivera internado. Mas enquanto Peralta deixava Portugal rumo a Cuba onde, por esses idos de 1975, também desembarcavam centenas de jovens europeus e norte-americanos para participarem na safra do açúcar, milhares de jovens cubanos começam a preparar-se para viajar para a África ainda portuguesa. A maior parte deles foram para Angola. Começaram a chegar antes das independências serem declaradas. Ocupavam as instalações que os militares portugueses iam deixando vazias e terá sido da mão de oficiais portugueses que os seus chefes receberam os mapas e as informações que lhes vão permitir orientar-se naquelas terras para eles desconhecidas até então desconhecidas. E bem precisavam desse apoio: mal chegam a Angola os cubanos começam a combater e a perceber que as evocações da Sierra Maestra não são suficientes para ganhar a guerra.Treze anos depois os cubanos sairão de Angola. Não vão vencedores nem vencidos. Eram simplesmente um incómodo. Quer para Angola quer para Cuba. Regressaram à sua ilha com histórias inconvenientes. Alguns levavam também diamantes. Outros droga. Alguns SIDA. Muitos acabaram nas prisões ou nos hospitais. A maior parte foi simplesmente esquecida. África voltara a ser madrasta para os descendentes de Tatu. O homem de quem nunca se fez nenhum poster. E que mal se sabe que existiu.

*Helena Matos-PÚBLICO, 11 DE OUTUBRO

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Cidade da China

É curioso observar a reacção à proposta da Maria José Nogueira Pinto ( MJNP) principalmente da parte do BE, mas também curiosa, a do próprio Presidente da CML, quando nas mais desenvolvidas e cosmopolitas cidade do globo o fenómeno está perfeitamente aceite, assente e consistente, a exemplo, Londres e Nova York. Mais, a reacção ( que, vê-se agora, é mais acção que reacção, pois eram sabedores e proponetes) da própria comunidade Chinesa instalada em Lisboa aumenta a estranheza e curiosidade neste processo: Pois que sim senhor, é uma boa ideia..! É caso para dizer, MJNP não dá ponto sem nó...

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Rapidinha

E uma coisa é certa: o Marcelo Rebanda tem mais autoridade do que o JM Júdice para defender o que defende aqui por uma razão simultaneamente simples e forte: não saiu do CDS/PP antes de falar.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Uma pergunta

Porque é que o PPD/PSD não deixa cair o PSD, com correspondentes decorrências internas, ao nível da sua orientação e caminho político, bem como externas, ao nível das consequências no espectro partidário nacional? Porque não assumir que o seu campo político ( ou um dos, pelos menos o principal) se encontra estilhaçado e fragmentado, podendo o PPD surgir como um pólo aglutinador e federador? Sem dúvida que o caminho a percorrer seria bem mais simplificado, tendo em conta a sua base de apoio, comparado o mesmo exercício com as iguais intenções que se proclamam à sua direita...Isto de ser um partido de esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita já não rende, pelo menos no Portugal de hoje e no Portugal que se quer ( ou se deve querer) esclarecido e sem meias tintas!

ATÉ QUANDO?

Até quando teremos de esperar para que o PPD/PSD surja aos olhos dos portugueses como um partido interclassista e não basista? Até quando teremos de esperar por um líder que fale claro e rompa com o discurso mole e generalista ao estilo "vamos lá ver se esta cola"? Até quando o País vai ficar privado de um PPD/PSD verdadeiramente reformador e que não alinhe no estilo "cola tudo" de um conjunto de fragmentos e pseudo-alicerces de um modelo de Estado que já não tem mais para dar? Até quando vão ficar tolhidas e submersas num mar de marasmo as energias e as vontades dos militantes e simpatizantes do PPD/PSD? Até quando vamos ter de aturar no PPD/PSD a "técnica do fúnil", isto é, por muito que se agite e abane, vai sempre dar ao mesmo e aos mesmos?

segunda-feira, 16 de julho de 2007

É só para lembrar o seguinte: António Costa foi eleito com 29,54% dos votos; a abstenção foi de 62,6% o que significa que só votaram 37,4% dos eleitores (Isto é de La Palisse, eu sei); a conclusão a tirar é que António Costa foi eleito com pouco mais de 10% dos eleitores de Lisboa!!! Nove em cada dez eleitores de Lisboa não votaram no candidato do PS!!! Como disse esta noite Luís Filipe Meneses (LFM) existe um enorme espaço de descontentamento com o PS que pode ser aproveitado. Não sei se nas actuais circunstâncias os meus amigos do PSD não deveriam apostar em LFM. O que acham?

SÓ VISTO!

Foi comovente ver Costa e Sócrates abraçados e envolvidos numa alegria esfuziante em cima de um camião TIR enquanto festejavam o abandono (voluntário mas sujeito a alguns procedimentos burocráticos como foram estas eleições) pelo PSD da CM Lisboa. Aliás, todo o PS exultou, como se pôde ver pela número imenso de militantes da Covilhã, Famalicão, Freixo de Espada à Cinta, Baião e por aí que vieram comer sandes e beber minis à porta do ALTIS. Fazendo lembrar antigas palavras de ordem, ouvia-se por toda a Lisboa - "O Costa é baril, venha daí o barril!"

quarta-feira, 11 de julho de 2007

É só para comunicar que já estou "ligado"! Muito em breve começarei a opinar. Já agora lanço imediatamente um assunto para discussão: o que acham do convite feito a José Miguel Júdice (JMJ); e, já agora, das suas explicações; não acham que à mulher de César não basta ser séria é preciso parecer! E acham que neste caso JMJ parece sério?

terça-feira, 3 de julho de 2007

A malta queremos é sermos campeões...

...de qualquer coisa que meta uma bola, seja ela redonda, oval, pequena, grande, a usar com as mãos com os pés...desde que proporcione muita horas frente à TV e facilite a alienação sobre tudo o resto que nos rodeia, a malta queremos é sermos campeões! Prometo, quando tiver mais tempo, de voltar à fala sobre esta matéria, a alienação incutida e hoje parte da necessidade diária do TBPF ( Tuga Bom Pai de Familia).

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Organização Administrativa e Natalidade

A Organização Administrativa do País e a Natalidade são duas das principais questões que já hoje condicionam o nosso futuro individual e colectivo. Não é possível pensar politicamente cada uma das duas de um modo desligado e como se não fossem matérias cuja ligação e interdependência é insofismável. É necessário encará-las de frente e com a seriedade indispensável ao reconhecimento da importância de cada uma delas.
Por detrás da distribuição territorial e da instalação física dos serviços públicos - nas áreas da Saúde e da Educação, por exemplo - está todo um universo de escolhas e opções políticas que devem ser estrategicamente orientadas em função da definição do País que queremos construir e ser. Não devemos confundir instrumentos operacionais ao dispor dos poderes públicos com a Visão de fundo sobre o caminho que desejamos para todos nós e da qual as políticas públicas devem ser tributárias. A menos que, independentemente do credo, raça ou religião, todos quisessemos ser contabilistas.
Nunca Mais Mais do Mesmo implica a necessidade de mudança, se necessário for, com rupturas. Mudanças a sério e não meras alterações ditadas pela simples mudança dos personagens e dos figurantes. Mudança da Política e das políticas assente no Visão do Indivíduo-Pessoa antes do Indivíduo-Cidadão remetido para a quotidiana categoria de contribuinte e pagador de impostos. Assente na perspectiva da responsabilidade inter-geracional e na radical diversidade da oferta e das propostas políticas - chega de Bloco Central, que alarga e cujo poder de atracção é cada vez mais forte e chega mesmo às margens do sistema. Assente numa Visão do País que não o pense como um produto acabado e com horizontes limitados - não há determinismos na História.
Com a convicção da imprescindibilidade dos partidos políticos e do seu papel decisivo para os regimes democráticos vem também a consciência de que algo está mal na sua actual configuração e modus operandi, como reconhecem os seus principais responsáveis, os quais, depois de cavalgarem os respectivos aparelhos, vão paulatinamente perdendo a paciência para os aturarem. Nunca Mais Mais do Mesmo significa também aqui falar claro.
Assume-se o gosto pelas Pessoas, pelo País e pela Política. Vamos então conversar sobre tudo isto.